Assisti ontem ao show do Chico Anysio. Muito bom rever seus personagens e o próprio Chico. Apesar de senti-lo um pouco cansado, que algumas vozes passaram por um natural processo de envelhecimento, eles continuam vivos, sao os mesmos caras que me acompanharam durante a infancia, sao os personagens de quem eu tentava imitar as vozes. Foi com Chico Anysio que aprendi algumas cosas imprescindíves ao humor: uma boa piada começa pelo final, se voce nao sabe onde quer chegar, nao chegara nunca. O comediante nao tem que ter pressa para dar seu texto, a platéia nao sabe o que ele vai falar, portanto, pra que pressa? Tudo que o comediante diz ou faz em cena deve ser engraçado ou preparar para algo engraçado. Coisas simples mas que sao fundamentais na hora de escrever e atuar.
A volta de Chico a tv foi muito legal, bem vinda, mas achei o programa muito parecido com Zorra Total. Os textos também ficaram bem aquem do potencial das personagens e muitos deles nem mesmo tiveram boas piadas, como o Pantaleão, Quemquem, Gastão… Mas, na minha opinião, a maior falha dos roteiristas foi colocar o professor Raimundo para contracenar com outros personagens, ou seja, era Chico sozinho. Este tipo de montagem fez com que se perdesse muito do timing e da energia do quadro que sempre se baseou nas brincadeiras e improvisos, a coisa ficou meio melancólica e travada. Um erro impedoável. Mas, de qualquer forma, o que valeu mesmo foi ver o velho Chico de volta, alias, ele deu até uma palinha de stand up comedy, gênero que domina há décadas. O que ficou foi o brilho do Chico mostrando que a maioria dos novos comediantes precisarão ainda percorrer um longo caminho pra, talvez, chegar perto dele.
Hoje, 01:03 de segunda feira, entro no UOL pra postar alguma merda e me deparo com uma chamada pro blog Atire no Dramaturgo, gelei. O Mário tá escrevendo? Já foi pra casa? Entrei lá e li o pequeno texto que diz tudo. Sei que ele deve ter ditado o texto para Isabela, assim como Fante fez pra Joyce (guardadas as devidas proporções).
Sem querer desmerecer as coisas que o Mario já escreveu em seu blog, mas, em razão das circustâncias, considero estas três linhas a melhor coisa que já li no blog deste puta amigo. Sinto agora que o Mario tá de volta. Claro, há ainda um longo caminho a percorrer, ainda bem. Confesso que ainda estou aqui na frente do computador tentando encontrar alguma palavra que defina o que senti lendo estas três linhas.
Mas, sabendo que o Mário tá bem, preparando-se pra voltar pra casa, vou fazer aqui uma proposta que ele vai adorar:
Mário, meu amigo há trinta anos, sei que voce, as vezes, é meio avesso a entrevistas, quer dizer, dependendo do entrevistador, tambem não participa de muitos programas de tv, mas estou pensando algo sensacional, tenho certeza que todos os “ amigos” vão apoiar: que tal se promovêssemos um encontro seu com o cardiologista que te operou, que salvou tua vida? E onde fazer isto? Claro, na tv! Em que programa? Ora, no programa do cara que sabe emocionar as pessoas,que terá total controle sobre o acontecimento: Gugu Liberatto. Já posso ver a cena, vc respondendo as perguntas do l'enfant terrible da Record, e, em seguida, ao som de uma orquestra passional, entra o cardiologista, vestido a caráter, com estetoscópio pendurado no pescoço, voce se vira, o vê, emociona-se, se abraçam, e durante este abraço sem palavras, “ lágrimas cascateando dos seus olhos”, ouvimos apenas a voz de gugu narrando o encontro com palavras inesquecíveis como:
_ Brasil, este encontro é inesquecivel… é forte… a emoção toma conta. Lembrando que daqui há pouco tem mais um capítulo dA Fazenda!
Depois disto voce e o cardiologista respondem as perguntas dos convidados (vou pensar em alguns nomes para sugerir a produção, mas acho imprescindível a presença da Sonia Abrão), e em seguida, vocês sao premiados com um passaporte master para o Parque Aquatico do Gugu alem de ganhar a coleção completa dos brinquedos e, para nao passar batido, a gente deixa agendado um Gugu na Minha Casa. A Avanhandava nunca mais será a mesma. Não é o maximo? Tenho certeza que ao chegar aqui teu coração já bate mais forte, voce já sente uma incontrolavel vontade de sair destacama e demostrar, através de algum contato físico, sua gratidão para com minha pessoa por eu ter tido esta idéia. Posso ver daqui sua pele ganhar nova cor e até sua mão fazer um pequeno movimento, como que antecipando o nosso encontro.
Bem vindo, Mario Bortolotto!
Bem Vindo!!!!!!!!!!
PS.: tinha feito uma fotomontagem do encontro, Gugu e Mário, mas achei melhor nao postar, isto poderia fazer com que o Mario antecipasse o gesto de gratidão através de algum amigo londrinense.
Nada mais é permitido. Vivemos a era do nada mais é permitido. Engraçada e triste essa era não se pode entrar anos lugares tomando cerveja, não se pode ficar em determiandos lugares. Eu não fumo, mas acho de uma imbecilidade atroz este negócio de leis anti-fumo. Não de pode encostar na escada, não se pode entrar sem carchá. Não se pode mijar de porta aberta em um bar onde nenhuma garota tem coragem de entar. Nao dá pra estacionar o carro sem que um imbecil de um flanelinha venha encher o saco. Nada mais é permitido. Devemos sair na rua perguntando afinal do que se pode fazer antes que um segurança brutamontes resolva nos encher o saco. Antes que um panaca com QI risível resolva exercer sua autoridade. Como ele deve se sentir bem com esse poder que ele tem de fazer cumprir a lei. Odeio seguranças. Já fui expulso de tantos lugares que até já perdi a conta. Houveram vezes mais amenas, como a noite em que estava quase comendo uma garota linda no Sanja em Sampa. O seguranca até que era legal. Nos convidou a saire lá for a pediu desculpas. Eu não reagi. Naquela noite eu tava particularmente feliz. …
Houve sessões mais hard, como na reinaguração do teatro Maria Della Costa onde eu cheguei a ser preso depois de ter saído na porrada com alguns segurancas. Acabei tendo que pagar três cestas básicas para uma instituição de caridade para me livar do processo. Sou reincidente em reina;gurações. Quando reabriarm o TBC, o negócio se repetiu. Os caras me ofereceram whisky e queriam o que? Que eu me comporte? Não é sempre que eu posso tomar Johnny Walker sem economia. Os seguranças estão sempre por ali, loucos para me por pra fora. Fui expulso do Finnengan’s depois de uma briga com um fotógrafo do Estado de São Paulo. Normal. As pessoas não enlouquecem. Vivemno seu mundinho politicamente correto juulgando aqueles que saem da linha, dos que não aceitam dançar qualquer som abjeto. É um mundo besta pra caralho essse que a gente vive.
Assisti ontem e o "filme" só fez fortalecer minha "fé" na religião como o câncer da humanidade. Toda religião parte da burrice, da crença no desconhecido, exige fé. Toda religiao proibe alguma coisa, coibe alguma coisa, aparta pessoas. Toda religiao tem culpa de sangue. Todas as religiões pregam a intolerância. Toda religião nao consegue aceitar a sexualidade como uma das muitas manifestações naturais do homem. Toda religião condena o que nao conhece. Toda religiao merece acabar. Nao precisa ser ateu pra chegar a esta conclusão. A esta hora há ditadores que em nome de ålá pagam a meninos de 14, 15, 16 anos para atarem bombas em seus corpos e detonarem-se, e como pagamento terão no ceu 100, 1000 virgens. Será que ninguem contou pra eles que,mesmo supondo que exista uma alma imortal, esta seria espirito, e como tal nao teria um pau e nem uma xoxota, portanto, pra que virgem? alias, no tal céu, segundo consta, nao tem sexo, logo o moleque poderia acabar comendo o cu de um Mohamed qualquer achando ser uma virgem. A religião é o crack do povo.
Muitas pessoas parecem confundir o artista com a obra. Procuram na vida do artista algo que justifique sua obra. Isto me parece um tanto bobo, já que a arte, na maioria das vezes, é uma manifestação que nem sempre pode ser associada ao dia a dia, as idiossincracias, eu acho que a arte deve vir do espirito do criador, de seujeito de ver o mundo. Um artista pode ser um filho da puta e produzir uma arte delicada e sensível, pode ser um bruto e produzir um material sofisticado, pode ser um cara sensibilissimo e produzir uma arte grotesca. O homem é diferente de sua arte. Balzac por exemplo era um glutao, nao tinha modos a mesa, era perdulário, mas isso nao impediu que ele escrevesse noventa e sete obras literárias, sendo a mais famosa A Comédia Humana. Jack London era um cara durão, que se metia em brigas além de alcoolatra. Ele certa vez bebeu tanto que entrou numas que podia respirar embaixo d’água e atirou-se ao mar, porem, os protagonistas de O Lobo do Mar são um capitão inteligente e centrado e um jovem sensivel e amedrontado. Willliam Faulkner era preguiçoso e insolente, alem de ter inventado lendas a seu respeito, como por exemplo um ferimento de guerra, embora nunca tivesse posto as botas num campo de batalha, mas é um dos mais inovadores estilistas da ficção norte americana. J. D. Salinger era um pai que usava métodos pouco ortodoxos para tratar as enfermidades dos filhos, ele costumava enfiar palitos de madeira pontiagudos na planta dos pés das criancinhas, logo elas se tocaram e nao reclamavam mais de mal estar algum. Salinger era judeu e casou-se com uma nazista, mas, nada disso pode apagar a mensagem de rebeldia e liberdade de O Apanhador nos Campos de Centeio. John Fante, meu grande ídolo literário, era um sujeito bem filho da puta, usou e abusou de “ Camila Lopes”enquanto era um garçon duro, logo que começou a ser reconhecido como escritor, trocou-a por Joyce, uma rica poeta. No dia em que Joyce deu a luz o seu ultimo filho, Fante estava tão puto que colocou-a num taxi e despachou-a, sozinha, pra maternidade. Mas o que fica de Fante, pelo menos pra mim, é a sua capacidade de revelar a crueldade e a beleza do ser humano, é sua fé na humanidade, é seu seu desejo de ninar cada proscrito que cruza seu caminho, sem contar, claro, a beleza inovadora e a sofisticação de sua prosa. E daí que Hemingway deu um tiro em sua cabeça? Isto não me acrescenta nada. O que ficou pra mim foi sua mensagem de obstinação, de luta contra o destino óbvio em O Velho e Mar. Ana Cristina Cesar se matou? Por que? Nao me interessa. Quando ouço o nome dela me vem a cabeça poemas que foram e são muitos importantes pra mim, me dizem algo, me impedem de embrutecer de vez, poemas que me dizem haver um ser humano abaixo desta armadura que me vejo obrigado a ostentar. A lista é longa, poderiamos falar de Jack Kerouac, Kafka, Lewis Carroll, Silvia Plath… mas nada disso importa, o que importa é que muitas pessoas as vezes confundem o autor com sua obra, muitas pessoas começam a assimilar a obra do autor achando que isto o aproximará dele, que o tornará parecido com ele, que o fará um grande autor. Passei por isto. Aos vinte e poucos anos li Charles Bukowski e achei que se eu enchesse a cara todos os dias, que se me metesse em confusão, brigasse, batesse em algumas mulheres, fosse insolente, dormisse na rua, talvez isto fizesse de mim um grande escritor… o maximo que consegui foi desenvolver alcoolismo, doença que, alias, Bukowski nao desenvolveu. Hoje sei que a persona que percorre os livros de Bukowski, Fante, Salinger, London, sao um apanhado de tudo aquilo que o escritor assimilou, é sua forma de ver o mundo, há ali uma mensagem. A violência, o alcool, drogas, suicidio, gnomos ou navios, são apenas formas que o autor escolheu pra mandar seu recado. Lembro-me que no espisódio Roleta Russa do Demolidor (Marvel - Frank Miller) o herói diz ao Mercenário: " ...de nada adiantariam as capacidades acrobáticas e de luta, se dentro de mim não houvesse o homem." Só o autor sabe de sua dor, e é uma dor real, eu jamais vou entende-la, nem senti-la, por mais que eu beba, mate elefantes, navegue, me asile na Abissínia, eu nunca saberei, o que vou saber é apenas o que ele conta, e isto já deveria ser o suficiente, o fato dele falar de uma dor que PARECE a minha e que me deixa por alguns momentos " consolado" já deveria ser o bastante.
As pessoas precisam de mitos pra sobreviver, enquanto os mitos precisam apenas de trabalho e um pouco de sorte.
Se tem uma coisa que nao existe ali na Praça Roosevelt é segredo. Se voce quer guardar um segredo, procure nem mesmo pensar nele quando estiver por ali. As notícias correm. Antes que voce saiba esta estória por outros, se já não souber, ouça-a do protagonista, com riqueza de detalhes e gorda de veracidade.
Paulo de Tharso e o escritor Sergio Melo. (percebam o dedo do Paulo)
Domingo, dia seis de dezembro, acordei cedo para ir a Santa Casa. Saí da rua Lisboa e fui na canela até lá. Naquela noite dormi bem, mas acordei com um mal estar, uma dor que aos poucos fui identificando a origem, vinha lá do baixo proletariado, ou seja, do ânus. Eu caminhava com dificuldades, a dor aumentado. São paulo tem um tipo de subjetividades geográficas, dependo do teu estado de espirito, tudo pode ser muito perto ou muito distante. Descer a Consolação com dor no cu fez com que ela se transformasse na Castelo Branco.
Chegando a Santa Casa encontro os amigos todos por lá, entre eles Paulo de Tharso, grande poeta, escritor, compositor, ator... Comentei com ele o meu estado. Porque eu fui fazer isso? Até aquele momento eu desconhecia este talento do Paulo para a medicina. Ele não só ouviu, como fez um pré diagnóstico e me receitou de imediato a colocação de gelo na regiao dolorida, ele mesmo apanhou o gelo no bar. Nao resolveu muito, mas, enfim…
Paulo entao decidiu me levar pro pronto socorro da propria Santa Casa, onde, aliás, no dia anterior, eu estivera tomando soro. Porém, no sábado, o pré atendimento foi feito pelo Cassiano.
No pronto socorro a primeira coisa que ouço da enfermeira é:
_ O senhor senta aqui e espera.
_ Moça, eu posso até esperar, mas sentar não vai dar…
Tive que esperar em pé. Enquando esperava, Dr. Paulo de Tharso corria atras dos médicos já com um pré diagnóstico:
_ Doutor, meu amigo aqui tá com um problema sério, ele apresenta dilatações varicosas no anus e desconfio que haja fissura anal.
Diante de tal diagnóstico, fui prontamente atendido, recebi uma bolsa de anti-inflamatório e um analgésico potente.
Enquanto eu recebia o soro temperado, dr. Paulo de Tharso começava seu trabalho de auxiliar e consultor médico. Acalmou um paciente que recusava-se receber soro, em poucos instantes o paciente dormia sob o seu dominio, ele tem poderes mediunicos. Em outro caso uma mulher gritava desesperada a perda de um ente querido, dr. Tharso, mais uma vez, usando a técnica da imposição de mãos, resolveu o problema como fosse um messias do serviço público de saúde.
Chegou minha vez,entrei numa salinha, deitei-me, o médico pediu pra eu baixar as calças e deitar-me de ladinho, com minhas partes pudentas expostas. Omédico mexeu, olhou, e quando ia dar o diagnóstico, ouço uma outra voz masculinaque discute com ele o problema. Pensei estar diante de uma junta médica. Porra, dois médicos me examinando! A coisa deve ser séria!Viro lentamente a cabeça pra identificar a junta médica e vejo, estarrecido, que o outro médico é nada mais nada menos que o dr. Paulo de Tharso que sorrateiramente entrou na sala durante o exame. A imagem era traumatizante: Dr. Paulo de Tharso, ao lado médico, ambosabaixados, de olho no meu cu. Paulo de Tharso olhava com aquele jeito sério, mão no queixo, pensativo, como se estivesse realmente analisando a situação e buscando em seus alfarrábios mentais alguma solução, enquanto isso, usando termos que só se ouve em consultórios médicos, ele parlamentava com o médico, num dado momento ameaçou por o dedo, nao deixei.
Ao final da consulta, Dr. Paulo de Tharso olhou-me e todo compenetrado disse em tom solene:
_ É sério.
O médico, profissional, concordou com ele.
_ Vai precisar de cirurgia! – disse dr. Paulo de Tharso enquanto o médico real apenas assentia com a cabeça. Pensei em pedir uma receita de Valium pra ele.
_eu aconselho a cirugia a laser, voce vai ter menos dor e o tempo de cicatrização sera menor em relação a técnica tradicional. - profetizou o dr. Tharso calmamente.
Na saída ele me disse o óbvio:
_ eu vi seu ânus!
Seria bem melhor que ele tivesse visto meu cu. Porra, o cara viu meu ânus!
Chegando a Londrina meu irmao me indicou um medicamento Daflon 500, que deu um jeito na coisa, mas, ontem, consultando-me com um médico, ele me falou que se em um mês a situação nao normalizar, vou mesmo ter que passar por uma cirurgia, respondi sem pestanejar:
_ tenho um amigo que é médico e ele me aconselhou a cirurgia laser.
_ Ele está certo. Voce terá menos dor e o tempo de cicatrização é menor em relação a técnica tradicional.
Paulo de Tharso sorri orgulhoso em São Paulo.
PS.: O meu amigo Sergio Melo nada tem a ver com esta estória, mas não consegui achar uma foto que superasse esta.
Hoje fui levar a Renata pro trabalho, o Mateus junto, sentado atrás em sua cadeirinha. Na volta, só eu ele, me toquei que não conversavamos. Comecei a entrar em pânico: porra, eu nao tô conversando com meu filho. Nao me vinha a cabeça um assunto que pudessemos conversar, nada. Isto tem sido uma constante em minha vida, as pessoas costumam me adjetivar como bom ouvinte, mas talvez isto nao seja exatamente um adjetivo e sim uma falha, uma inabilidade em me comunicar. Muitas vezes digo “ sim” quando queria dizer “nao” , muitas vez ouço merda sem prestar atenção, simplesmente porque nao consigo dizer nada. Há dias em que estou inspirado e aí falo pra caralho, faço as pessoas rirem, mas nunca digo nada muito pessoal, nao me revelo. Ali no carro, junto com o Mateus, percebi o grau desta inabilidade: nao consigo me abrir nem com meu filho. As vezes fico pensando em contar estórias legais pra ele, interpretando, dando vida e colorido ao roteiro, mas nao me vem a cabeça nenhuma boa estória, parei nOs Três Porquinhos. Já pensei até em comprar um bom livro de estórias, fábulas, pensei em me aprofundar em Dickens, De La Fontaine, Esopo, Homero… mas sei que nao se trata disso, acho que a coisa toda reside no fato de ser aprovado. Se eu ficar quieto vou ser aprovado, se abrir a boca corro o risco de ser reprovado, de ser menos amado. Uma merda, mas acho que é isso. Mas tenho feito algum progresso, ontem, deitado com o Mateus, no escuro, ele me fala: pai, conta aquela estória de quando voce era criança. E lá vou eu, tentando me lembrar de algum capítulo de Meninos de Kichute. Contei a do acidente, onde, aos sete anos, sou atropelado. Ele gostou, pediu bis. Pra hoje a noite planejo contar a estória de como um cachorro advinhou meu medo e mordeu minha perna. Espero que ele curta.
Um dia o Regis Trovão me convidou pra fazer stand up na Coletivo Galeria. Fiquei apreensivo, afinal de contas o local era frequentado pelo pessoal da Roosevelt: atore, escritores, músicos, enfim, gente que tem mais o que fazer do que ficar ouvindo comediante de stand up, alias, a maioria destas pessoas, incluo-me, nem curte muito a maioria dos comediantes. Bolei entao um texto que pudesse falar a todos, escrevi sobre drogas. Na noite de apresentação a bagaça tava lotada: meus amigos, gente que nao conhecia ainda. A apresentaqção foi deliciosa, as pessoas riram muito. Fiquei surpreso e lisongeado ao ver, em especial, o Mario e o Marcelo Rubens Paiva rindo, curtindo o texto. Ao final o Marcelo me disse: ponha no Youtube, o texto é muito bom, tenho certeza que vai ser legal. Ouvi o conselho do mestre e, alguns meses depois, gravei o mesmo material no teatro Folha e o resultado, conforme previu o Paiva, foi legal, um mes e meio depois de ter postado o video, consegui ultrapassar os 10 MIL acessos. Obrigado!
BOLETIM DA SANTA CASA
Falei ontem com a Isabella e o Mario tá cada vez melhor. Domingo recebeu a visita do prefeito e São Paulo, Gilberto Kassab e na sequencia o médico liberou pra ele uma tv, pasmem, uma Tv na UTI!!!! O Mário já esta sem aparelhos, apenas uma sonda drena o pulmão, mas já está em vias de ser retirada. Mario reclamou dos filmes selecionados pela filha. Sugeri a ela que desse uma busca naquela kitchenete, lá tem filmes que nem o Rubens Edvaldo viu. Enfim, o cara realmente é um touro, tá se recuperando super bem e parece que logo logo abandona a UTI.
Infelizmente nao pude participar do show Amigos do Marião, tive que sair as pressas de sao paulo, um delicadíssimo problema de saúde me afastou da "capitar" e me trouxe de volta pra casa. Fiquei sabendo que o show bombou e cumpriu seu objetivo que era arrecadar uma grana pra ajudar no tratamento do Mario. Fui convidado pelos organizadores do evento para fazer um trechinho do meu stan up comedy, eu planejava apresentar aquele texto sobre as diferenças entre alcool e maconha. Alias, um dia um comediante carioca veio reclamar que eu falo de um assunto so, que assim nao poderei agradar a todo mundo. Talvez este seja um dos motivos pelo qual o gênero é tão mal visto, esta gana de agradar todo mundo. Só se agrada todo mundo sendo superficial. De qualquer forma, ai vai, pra quem ainda nao viu, o video de minha apresentação no teatro Folha.
Eu e a Renata temos uma missao para os proximos dias: ESCOLHER O NOME DO BEBÊ, DO NOSSO MOLEQUE. Nao me vem a cabeça nenhum nome legal, isto é, as vezes vem, mas já conheço alguem que usa o tal nome e muitas vezes é um sujeito mala, mal carater, entao vai ficando dificil.
Um leitor escreve insinuando que a atitude do meu amigo Mário tem a ver com literatura beat, com um personagem saído de algum romance policial, ou mesmo de quadrinhos. Acho isto no mínimo leviano, associar um ato destes a literatura é o mesmo que chamar o Mário de psicopata, ou, sei lá, acusa-lo de ter algum tipo de desvio mental, um mitômano de plantão. Se a obra tivesse este poder de influência sobre o criador, imagine como seria a morte de Walter Lantz, o criador do Pica Pau? Ele morreu de insuficiência cardíaca aos 95 anos.
Tenho certeza de que a única coisa que moveu o Mário foi a indignação, assim como a indignação o moveu em outras paradas brabas, em brigas, em discussões, em provocações. Lembro-me de Dona Maria, mãe do Mário, me contando sobre uma vez em que só conseguiu se atendida num hospital público de Londrina depois do Mário ter dado um esporro gigantesco em atendentes e médicos. Isto era início dos anos oitenta, nao existia Tarantino, nem Ranxerox, nem Ronin, nem... Era indignação pura. Pra um personagem sobreviver na mira de uma arma, ele tem que ser muito forte, e se for, entao seu criador já nao existe mais e já nao pode criar absolutamente nada. Nao é o caso do Mário, que continua criando e muito, trabalhando pra caralho. Indignação é uma coisa que nao se adquire lendo Carta Capital e muito menos On The Road. Indiganação é algo nato. Já vi este sentimento em um ou dois escritores, mas vi muito mais em operários, bêbados, pais de família, pessoas comuns que tiveram que aprender muito cedo a não baixar a cabeça. De onde eu saí nao chamam a isso de “culhão”, chamam “indignação”. Meu pai dizia: nao se abaixe que a bunda aparece. Acredito queo pai do Mário dizia algo parecido. A indignação já me salvou a vida, e havia uma arma apontada pra minha cara, a diferença é que eu estava sozinho, nao coloquei a vida de ninguém em risco, a nao ser a minha. Então, que tipo de raciocinio é esse de que o ato do Mário foi impulsionado por livros, peças, filmes? Talvez a resposta esteja no fato de que nestas plagas a palavra indignação tornou-se uma grife e que semanifesta apenas no campo teórico, entao, quando ela aparece assim, tão viva, é preciso deslegitimiza-la, afinal, ela espelha nossa bundamolice. Não estou generalizando, sei que há excessões. Também não estou sugerindo que todos devam reagir a um assalto, isto é tolice, é por a vida dos amigos em risco, acho até que o Mário deve tá arrependido desta merda, se estivesse sóbrio teria manifestado sua indignação de outra forma, apenas digo que deveriamos abandonar a passividade, manifestar nossa indiginação de maneira mais clara e enérgica, seja no trânsito, no balcao da padaria, na fila do banco, com os jornais, a tv, o cinema, talvez pudessemos começar com os idiotas que nunca desligam o celular durante a peça. Por favor, só nao vamos confundir indignação com intolerância, aí quem estaria com o dedo no gatilho seriamos nós.
Nao posso fazer nenhum julgamento sobre o ato do meu amigo, posso fazer considerações, mas, no momento, acho que já foram feitas todas possíveis, falta só a do próprio Mário. Uma coisa é certa, estes tempos consumistas, de dinheiro muitas vezes facil, de conquistas fast, de celebrizações instantâneas, tudo isto tem roubado um pouco daquilo que nos trouxe até aqui: indignação.
Meus planos mudaram, minha saúde tambem mudou, e graças a isso tô em Londrina e devo ficar por aqui um bom tempo. Na verdade, já estava há um bom tempo preparando, aguardando esta saída estratégica. Daqui devo tocar alguns projetos que iniciei em Sao Paulo. Na quarta, antes de viajar, estive na Santa Casa e pelo jeito o Mario está super bem, a Isabela conversou com ele normalmente, levou a capa do livro Uma Noite no Inferno, do Rimbaud, que o Picanha mandou. Nao vou dizer aqui qual foi o comentario do Mário, perguntem pro Paulo de Tharso.
Noticias boas, dias melhores, noites tranquilas, e, pra completar, a renata fez ultrassom: ela esta grávida de um MENINOOOOOOOO.
Estive hoje na Santa Casa, estavam la o Mirisola, Douglas Kim, Flavinho, a namorada do Cassiano (sorry) e ouvimos da Eliane e da Isabela, que visitaram o Mário a tarde, de que ele tá legaL, recupera-se gradativamente. Segundo elas, pela manha, o Mário chegou a escrever um bilhete (uma frase) para uma das enfermeiras, um recado para a Isabella. É mole? O cara nem saiu da UTI e já começou a trabalhar. Ele mostra estar consciente de tudo que está acontecendo. Tem movimentos estáveis, abre os olhos e comunica-se através de gestos, pois, por enquanto, nao pode falar.
Eu deveria ir embora hoje logo após minha apresentação no Inflamável, mas vou ficar para participar do "show" de quinta-feira no Aurora.
Hoje faço minha ultima apresentação no Inflamavel, na rua Maria Borba, 87. Se puder, apareça.