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Blog do Márcio Américo


MEU AMIGO REINALDÃO

Eu e o Reinaldão em outubro de 1999.
 
Já faz quase um mês que meu amigo Reinaldo Henrique morreu. Um mês antes, mais ou menos, eu havia escrito um texto aqui falando sobre morte, sobre como eu ainda não tinha chorado a morte de ninguém... até o Reinaldo. Foi a primeira vez que a noticia de que alguém morreu mexeu comigo e me fez chorar.
Conheci o Reinaldo em 1988, ele surgiu do nada, como sempre, usava um cabelão meio Black power meio periferia, óculos escuros, botas, e falava que tinha descolado um trampo como crooner de uma banda. Dois anos depois ele me procurou para que eu escrevesse uma peça pra ele, este foi o inicio da nossa amizade.
A peça chamava-se Vai Fundo, Arturo Bandini, lembro-me que o Mario Bortolotto fez a sonoplastia pra nós, a Renata, minha esposa, fala até hoje desta sonoplastia: Walk on the Wild Side, DayDream, Sampa Midnight... infelizmente a fita com a sonoplastia foi “surrupiada” pelo também amigo Roberto Virginio. A peça é inspirada em Pergunte ao Pó e na figura do Reinaldão, um sujeito que, para burlar uma infância pobre, fodida, com um pai ausente, decidiu forjar um personagem: O Reinaldão. Reinaldão era o melhor em tudo, era o mais bonito, o mais rico, o mais talentoso. Lembro dele no bar Valentino sendo abordado por uma garota:
_ Ei, eu não conheço você de algum lugar?
_ Você assiste a novela das oito?
Ele costumava falar das varias fazendas de “papai”, oferecia carona as garotas em seu possante carro, quando elas aceitavam ele dava um jeito de sair a deriva e continuar a beberagem em outro canto da cidade, a pé.
“Vai Fundo...” era o Reinaldão na essência, era Bandini também, um Bandini chinfrin, abusado, cara de pau, um bufão pé “vermeio”.
Ninguém jamais desconfiaria que Reinaldo não era ator, ele simplesmente encarnava o personagem Victor Gonzaga, um jovem que deixa sua cidade e vai pra são Paulo no intuito de tornar-se um grande escritor, mas acaba tomando no rabo.  Fico pensando agora nesta coisa de responsabilidade sobre o que se escreve, até que ponto influencio as pessoas com o que escrevo. Reinaldo foi muito influenciado por esta peça, tanto que após a temporada em Londrina, ele foi pra são Paulo vender poesia em botecos... ele o Leonardo, Everton Bortotti, Adelmo, Ivan Petrocivh e Gilmar Buki. Uma das cenas mais comoventes que soube desta odisséia de Reinaldo por são Paulo é ele bêbado, correndo na Paulista, embaixo de chuva, chorando e pedindo desesperadamente: eu quero voltar pra casa!
Em 1995 ele voltou pra Londrina, sua amiga Stael Fernanda estava gerenciando a radio Transamérica FM, onde eu trabalhava como redator, Reinaldo foi pra lá trabalhar como vendedor. Ganhou grana, comprou boas roupas, afinal de contas tinha chegado a Londrina detonado de roupa, grana e rango.
Nesta época eu e ele bebíamos muito, cheirávamos muito, fazíamos tudo muito. Numa destas viagens entramos numas de abrir uma agência de publicidade em sociedade com o então usurário e ator Lazaro Câmara. Depois de seis meses  falimos espetacularmente.

Os empresários otários: Reinaldão, Lázaro e eu.

Foi por esta época, 1996, que ele conheceu sua esposa Cristiane. Lembro-me dele me falando da vergonha em leva-la pra conhecer sua mãe, que morava na periferia de Londrina, numa casa muito, muito humilde, cheia de crianças, numa rua sem asfalto. Mas ele acabou passando por cima de seus traumas e levou a Cris que conheceu sua mãe e logo em seguida foram morar juntos, isto é, o Reinaldo e a Cris.

Quando ele recebeu a grana de "acerto"da Transamérica, comprou um Fusca velho, o carro era tão detonado que ao passar sobre uma saliencia qualquer, a porta abria. Reinaldo que na época já usava óculos, deve ter perdido uns 30% da sua visão, dirigia o velho fuca, cegamente, até que um dia o bólido incendiou-se.

O Reinaldo, mesmo casado, insistiu durante um tempo em levar vida de solteiro, alem de ser muito folgado. Lembro de uma estória muito boa, ele se preparava pra tomar banho quando a COPEL vem pra cortar a energia elétrica por falta de pagamento. Reinaldo vai até o portão e convence o homem a esperar ele tomar banho, pois estava frio e ele queria banho quentinho. O homem esperou.
Eu e o Reinaldo fomos até uma clinica em Londrina onde sua mulher fazia exame para ver o sexo da criança. Era homem. Reinaldo e eu comemoramos a noite toda.
O filho recebeu o nome de Victor ( hoje com 12 anos), como Victor Gonzaga da peça. Anos depois ele teve uma filhinha que chamou de Vitória (hoje com 9 anos). Reinaldo tem ainda uma enteada, Letícia, 19 anos.

Na praia com os filhos: No colo Vitória, na areia Leticia e na esteira o primogênito Victor.

Na ultima década Reinaldo tornou-se um sujeito caseiro, gostava de ficar em sua casa nova curtindo os filhos e a mulher. Gostava de passar ferias com família em Florianópolis onde sua sogra, dona Beatriz, tem uma casa. Mesmo longe das noites, dos bares... não de todo naturalmente, ninguém é de ferro, mas nos últimos anos o Reinaldão era outra pessoa, mas continuava divertido, bem humorado e acima de tudo soube conservar a lealdade e admiração pelos amigos. Reinaldo não tinha inimigos, desafetos, nunca ficava ressentido a ponto de romper uma amizade. Em seus aniversários reunia todos os amigos. Todos.

 

 

Reinaldo versão familia: a esquerda Cris, sua esposa,ao lado dele Leticia e aniversariando Vitória.

 

Mesmo longe dos palcos, com quase quarenta anos, alimentava o sonho de remontar "Vai Fundo, Arturo Bandini".

Reinaldo perdeu a vida por pura incompetência dos Médicos do Hospital Universitário de Londrina, que cometeram uma série de erros nos diagnósticos, os médicos do HU pavimentaram a estrada de Reinaldão pro cemitério. Ele foi internado com pneumonia, mas os sábios médicos do HU entenderam ser pancreatite, e passaram a trata-lo de maneira errada, com medicamentos errados, tudo errado. Alem do mais, ganhou do HU uma bactéria que acabou matando-o.

Reinaldo alimentava para este ano o sonho de casar-se com Cris na igreja católica, mas, durante a internação, Cris descobriu que Reinaldo não era batizado, então, na terça feira, quando ele estava em coma, ela, por conta, batizou-o com agua da pia, no dia seguinte ele morreu. Sou ateu, mas numa situação com esta um gesto como este ganha outros significados, vai alem da mera fé e coisas como deus, céu, inferno...

A morte do Reinaldo, pra mim, ainda é um troço inaceitável, improvável, uma destas mortes que parece ter vindo na hora errada, pro cara errado, na verdade acho que a maioria das mortes prematuras deve ser assim... Ontem estive na casa dele, conversei bastante com a Cris, relembramos estórias do Reinaldo e a impressão que se tem é que o Reinaldo ainda está por aqui. Eu acho que tá.

 



Escrito por Márcio Américo às 15h17
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