Aonde é que foi parar aquele cara que se aventurava noite adentro, que tinha sempre na cabeça grandes idéias, aquele sonho constante de fama e grana fácil, que não tinha medo do escuro e desafiava a lei da gravidade, descalço, sujo, levando no bolso apenas a carteira de identidade que já não identificava nada?
Aonde foi parar aquele cara que varava a noite em grandes discussões, que era teimoso, que tinha sempre um último argumento que tirava do bolso como quem tira uma espada ou um estilingue feito com “borracha de soro”, que tinha tantas certezas e não se envergonhava de defendê-las?
Por onde anda aquele individuo que com três damas no flop blefava, fazendo os jogadores imaginarem que ele trazia em sua mão esquálida e torta um full de ases. Check-raise.
Cadê aquele sujeito que às vezes olhava pro céu e falava com seu deus, cheio de fé, crendo que naquele momento o universo dava um tempo e Ele reclinava seu milenar ouvido, feito um satélite, em sua direção, e o ouvia, e naquele silencio sepulcral dizia: to contigo, garoto?
Não vi mais aquele cara que lutava com a velha remington dançando sob seus dedos velozes, que cuspia frases bem pensadas, que acreditava no fluxo constante do inconsciente e buscava estórias perdidas?
Cadê aquele sujeito que corria risco por vielas escuras, que provocava demônios enfileirados na Avenida Brasil, que dividia pedaços de morte com anjos decadentes e chapados de tudo?
Este cara está aqui, tentando escrever, tentando não perder o pique, tentando desesperadamente aproveitar aquela chama pequena, aquela brasa tímida sobre a fogueira, soprando desesperado pra ver se consegue labaredas. Este sujeito ainda está aqui, mirando-se no espelho a procura de novas rugas, brigando com novos e velhos cabelos brancos, resistindo à velhice inevitável. Este sujeito continua por aqui, cansado, cético, aborrecido, tímido, às vezes não sabendo o que fazer com as mãos, olhando pelo espelho os amigos rindo como antes. Este cara insiste em ficar por aqui sonhando que ainda pode-se despontar depois dos quarenta, agarrando-se à oportunidade, rindo da memória surrada e não confiável.
Este cara sabe que o tempo vai passar, agora mais rápido, e talvez ele seja atropelado pelo acaso, pode ser que a velha chama nunca mais apareça e que a tela branca finalmente ganhe.
O que este cara ganhou até agora? Aliás, quem disse que havia algum prêmio? Pérolas? Quem falou? Não! Não tem perolas nenhuma, só o copo vazio e o meu reflexo lá no fundo. Desci pro play sem saber que as apostas eram altas. Fiquei duro e tive que cair fora, devendo. O que este cara tem? Acho que sei... Tenho duas pessoas. No fim das contas, o sujeito que queria o mundo, fama, dinheiro, drogas, tem agora duas pessoas e quando ele vê estas duas pessoas, é como se realmente ele tivesse pegado todas as pérolas possíveis. Full de ases.